Sunday, September 25, 2005

 

À sombra da vida

São tristes, melancólicos, nostálgicos e românticos. Ouvem música depressiva e vestem-se de preto. Uma viagem pelo mundo dos góticos, em Lisboa.


No palco da discoteca Disorder, junto ao Cais do Sodré, em Lisboa, só se distinguem vultos, numa coreografia lenta, solitária e monocromática, pintada de preto. O som é pesado e melancólico. Ecos de sintetizador misturam-se com cordas de guitarras e batidas analógicas acompanhadas de vozes guturais, num constante oscilar entre o romântico e o feroz da Electric Body Music (EBM). Chamam-lhe gótico industrial. Ao fundo, numa mesa sob as arcadas de pedra que denunciam a frieza do espaço, Susana Martins está sentada. Tem os olhos rasgados e acentuados pela maquilhagem negra; o cabelo, em tons de vermelho, está apanhado num imponente rabo de cavalo, com uma franja curta a lembrar os 70’s. O vestido é curto e agarrado ao corpo, preto - claro -, sobre umas meias de rede de malha larga, a que se juntam umas «plataformas» de presilha, como calçado. Os «piercings» correm o corpo desta estudante de Matemática Aplicada, 27 anos, que, desde muito cedo, encontrou no modo de vestir a atitude que define a sua forma de estar: «alternativa».
Susana apanhou o movimento gótico já tardiamente, nos princípios da década de 90, quando já desfilavam, há uma dúzia de anos, as personagens excêntricas do vanguardismo no Bairro Alto. Ela continua fiel a essas origens. E, naquela noite, foram as letras dos clássicos que a fizeram saltar para a pista de dança. Primeiro The Smiths, depois The Mission, The Cure - os reis da melancolia -, Siouxsie and The Banshees, Joy Division... «new wave» puro, para os revivalistas do gótico.

Nuno Cardoso, outro incondicional das noites negras, transpirava num fato de veludo, ao som do «cyber-gothic». No balcão do bar, os «tangos» (cerveja com groselha, em tom sanguinário) refrescavam a noite quente, pouco condizente com o ambiente mais invernoso que o imaginário gótico dita. «O gótico é uma maneira de estar, um estado de espírito, talvez um pouco depressivo e solitário, que vai ao encontro deste tipo de música e destas letras. Aliás, a música é o pólo dinamizador de todas as tribos», afirma este engenheiro informático de 32 anos. «É uma música de cariz suburbano, para quem vive na periferia e sonha com as grandes cidades. A imaginação é muito importante», acrescenta Fernando Ribeiro, o vocalista da banda «metal-gothic» Moonspell.
A noite é o elemento conciliador desta tribo urbana, que a elege como cenário para a teatralidade dos seus estados de alma. A roupa é o veículo de comunicação, que os transporta para o ambiente neo-romântico e vitoriano do final do século XIX. Os folhos, o veludo, as redes e os mais variados acessórios com detalhes que se assumem, ao mesmo tempo, mórbidos e extravagantes, como morcegos de prata ou cintos de tachas, servem para compor as indumentárias. O bâton escarlate ou negro, as unhas pintadas de preto e a base branca para a pele da cara maquilham as figuras.


É quando o sol se põe que, quase todos eles, assumem a sua verdadeira natureza gótica, pouco compatível com as rotinas diárias. «De dia, ando camuflado», diz Filipe Ribeiro. Muitos deles têm um curso superior, seja no ramo das humanísticas seja nas ciências. Outros são mais virados para as artes. Em comum, têm a vontade de mostrar aos outros aquilo que são na realidade, mesmo quando entram no mercado de trabalho. «Mas é difícil a aceitação por parte da sociedade», diz Mário Rui, gerente dos dois lugares de culto gótico em Lisboa, o Toxina e o Disorder. Por isso, não é raro encontrá-los em profissões onde se possam «mostrar» sem chocar ninguém, como o telemarketing, ou vestirem a «máscara» sempre que o contacto directo com o público é obrigatório. «Há quem ponha uma peruca para esconder a crista e ir trabalhar», assegura Susana.
Mais do que um mero encontro entre vários géneros musicais, este movimento é uma forma de ser. Uma tendência elegível, sobretudo durante a adolescência, quando se revelam os primeiros sintomas de inadaptação à sociedade. Mas, ao contrário de muitas outras tribos urbanas, nos góticos a revolta revela-se por uma espécie de estranheza e indignação contra os valores sociais, experimentada num modo de vestir e de estar que desafia o lado mais luminoso da existência. Cultos, apreciadores de literatura, arte e poesia neo-romântica, adeptos da cena fantástica, parecem viver do reflexo ilusório da vida, «à sombra da personalidade», como lhe chama a psicologia.

Foi na década de 80 que o movimento começou a ter expressão em Portugal. A discoteca Juke Box era então o ponto de encontro dos seus adeptos. Na altura, chamavam-lhe os «vanguardas», quiçá por viverem à frente do seu tempo, mas depressa ganharam o rótulo de góticos, por se assumirem contra o movimento vigente (já a arquitectura gótica opunha-se às tendências medievais, convencionais). Beberam muito da sua inspiração nos punks - daí as cristas, as tachas e as correntes -, mas tornaram-se nuns «rebeldes» mais apurados, mais extravagantes, mais cultos e mais interessados, sem nunca serem agressivos.
Com o passar dos anos, em Portugal, a minoria gótica, cada vez com menos força, teve necessidade de fazer um cruzamento com outras «raças». Surgiu o gótico metálico, o punk gótico, o industrial, o pop, o revivalista, o vampirismo - retratados nas páginas que se seguem -, o fetiche, o pink... Mas o meio continua a ser pequeno. «Conheço todos de vista», afiança Mário Rui.
Mas a noite deles não passa só pelas discotecas. É possível encontrá-los em visita aos cemitérios ou em plena serra de Sintra, «lugares de paz e de contemplação», como diz Ana Rosado. Fogem da praia como o diabo da cruz, para conservarem a palidez com que pintam a vida. Ao contrário do que se pense ou diga, a maioria dos góticos não são adeptos dos rituais satânicos, nem de outros ritos pagãos. Habitualmente, são apolíticos, cristãos ou ateus, e a procura do conhecimento é feita através da sua relação com a morte. Ela é o garante daquelas sorumbáticas existências.


Retirado do Expresso de Ontem

Comments:
Ola Guys
O meu nome e David Lee agora, mudei de nome some anos atraz,
dantes chamava-me Luis Garces...
Eu e o Mario Rui faziamos concertoe e metiamos musica ai no RRV, O mario Rui trabalhava na Dansa do som.
Nos metiamos musica na Jukebox tambe...m...

Agora vivo em Londres a 20 anos e gostava de contactar o Mario Rui, alguem sabe onde o posso encontrar? email address?

David Lee mail@natashadavid.co.ukSee more
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